domingo, 7 de fevereiro de 2010

O cadáver que vi na Br 116, Linha Verde, próximo ao viaduto do Xaxim.

Já faz tempo. Estava eu voltando da faculdade á pé; virei no viaduto do antigo trecho da BR116, próximo á um galpão/indústria que processava fertilizantes (espalhando um cheiro fortíssimo daquele cheetos meia lua nas resdondezas), andei alguns metros e...!
Eis que, na ciclovia, vejo um cadáver; alí, largado ao chão, nú, atravessado na minha frente e com um puta buraco no lombo. Acho que -embora estivesse na calçada- foi vítima de atropelamento.
Carros e caminhões passavam espalhando CO misturado com outras porcarias de combustivel adulterado (BR né...), e eu fiquei ali, parado admirando a cena.
O buraco era tão grande que quase não era buraco. Acho que se eu chutasse o corpo, ele se partiria em dois. O intestino delgado, já sem as pregas, dava voltas quase por fora do corpo. As costelas também estavam expostas. Tinham aínda alguns outros troços que eu não consegui ver o que eram. O corpo era bem jovem e pequeno, com certeza aquele indivíduo nem chegou à puberdade. Sobre o rosto, tudo o que eu lembro é que provocou em mim uma grande compaixão. Quase me fez chorar por dentro.

Estava ali, sozinho, naquele lugar sujo, fedido e feio. Não sabia nem o que estava fazendo no mundo, apenas respondia estímulos: ficava feliz e sofria (provavelmente mais sofria).
Como terão sido seus últimos momentos? Imagino que ele estava procurando algo e foi parar ali. Acho bem provável que tenha sido atropelado durante a noite. "Que merda!" pensei. O que alguém tão jovem estaria procurando alí de noite? Talvez um lar... talvez alguêm em semelhantes condições para partilhar sua existência...
E o derreadeiro momento da morte? como terá sido? Acho que o atropelamento não ocorreu na calçada mas na rua; ele também não deve ter sido arrastado, acho que depois do choque engatinhou com o tronco aberto até lá. Ou seja, acho que foi foda.

Tão ignorante de tudo... O que seu rosto revela sobre seu fim? Talvez que seus últimos segundos se resumam em poucas palavras: ignorância, medo, dor e solidão. A posição em que estava colocado lembrava muito a posição que as crianças ficam quando estão manhosas ou querem carinho dos pais. Era como se, no fim, tivesse procurado um consolo "do nada" ou talvez do próprio chão.
Chegou à me ocorrer que eu devesse abraçá-lo, como forma de lamentar a atenção que aquela criatura, tão semelhante a mim, não recebeu em vida. Pensei que deveria deitar ao chão com ele, afagar seu rosto, lambê-lo e me sujar de suas tripas como se fossem minhas. Enfim, fazer seu sofrimento ecoar e talvez mostrar a mim mesmo que se eu não o ajudei não foi por má vontade. "Meu semelhante... meu companheiro no fastídio do mundo... ali, naquele estado..."  Mas é claro que eu não o fiz, por pudor e por nojo.

Passei no mesmo lugar algumas vêzes durante as semanas seguintes e pude assistir quadro á quadro parte de sua decomposição. No dia seguinte à chuva o corpo parecia ter se fundido com o solo; os pelos estavam todos grudados no chão e não havia mais aquela reentrância saliente que separava o que era cadáver do que era ciclovia. Se o corpo fosse da cor do piche -e claro, não fosse pelo destroçamento lombar- sería facilmente confundido com uma lombada.
Alguns dias depois o rosto -de tão fodido- já não inspirava mais sentimento algum, e as duas metades do corpo estavam quase totalmente separadas. Depois aínda, a pele fraca foi atravessada pelas costelas.
Não passei mais naquele lugar durante um mês inteiro pra evitar o fedor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário